![]() COT Nº 69, novembro
de 2001
Embrapa
Gado de Corte
Essa coleção é o resultado de duas viagens de coleta no Leste da África em 1967 e 1969 pelo IRD. O Leste da África é o centro de origem dessa espécie, portanto, a coleção é representativa da variabilidade natural da espécie. A variabilidade genética existente na coleção é grande, o que permitiu a seleção direta da cultivar Massai, entre outros acessos. Os acessos recebidos do IRD foram comparados na Embrapa Gado de Corte a partir de 1984 em parcelas, durante dois anos. Foram determinadas a produção forrageira, qualidade, produção de sementes e época e intensidade de florescimento, potencial de adaptação aos solos de cerrado, potencial de recuperação após o corte, e a estacionalidade da produção forrageira. Os acessos foram ainda descritos morfologicamente. Tais informações foram analisadas em conjunto, e selecionaram-se 25 acessos que apresentaram o melhor desempenho em todas essas características agronômicas, e que ainda representassem a divergência morfológica da coleção. Os 25 acessos superiores foram avaliados na 1a Rede de Ensaios Nacional em sete locais. Os sete melhores acessos foram avaliados em piquetes com animais e, posteriormente, em ensaios de desempenho animal. O conjunto dessas avaliações, além das de exigência em fertilidade e susceptibilidade a pragas e doenças, levou ao lançamento das cultivares Tanzânia-1 em 1990, Mombaça em 1993 e agora Massai em 2001. A cv. Massai (Registro SNPA BRA 007102, e ORSTOM T21) é um híbrido espontâneo entre P. maximum e P. infestum, e foi coletada na Tanzânia na rota entre Dar es Salaam e Bagamoyo em 1969. É uma planta que forma touceira com altura média de 60 cm e folhas quebradiças, sem cerosidade e largura média de 9 mm. As lâminas apresentam densidade média de pêlos curtos e duros na face superior. A bainha apresenta densidade alta de pêlos curtos e duros. Os colmos são verdes. Por ser um híbrido entre as duas espécies citadas, as inflorescências são intermediárias entre uma panícula, típica de P. maximum, e um racemo, típico de P. infestum. As inflorescências apresentam ainda ramificações primárias curtas e nenhuma ramificação secundária. As espiguetas são pilosas, distribuídas uniformemente, com a metade da superfície externa arroxeada. O verticilo é piloso. A cv. Massai é uma nova opção forrageira morfologicamente muito distinta das demais cultivares da espécie existentes no mercado. Ela encontra-se entre os 16% dos acessos da coleção classificados como sendo de porte baixo; 19% como de folhas finas; 8% com folhas eretas dobrando nas pontas; 18% com pilosidade nas espiguetas e 4% de híbridos naturais entre as espécies P. infestum e P. maximum. A cultivar Massai apresentou também 53% menor estacionalidade de produção que o Colonião. Em relação às cultivares Tanzânia-1 e Mombaça, a cv. Massai apresentou porcentagem semelhante de folhas (em torno de 80% de folhas), mas por ser de porte mais baixo que ambas as cultivares, sua produção de matéria seca foliar também foi menor. A cv. Massai apresentou concentração
de proteína bruta nas folhas (12,5%) e colmos (8,5%) semelhante
à cv. Tanzânia-1.
b) Paragominas, Pará (Embrapa Amazônia Oriental); c) Planaltina, Brasília, (Embrapa Cerrados); d) Rio Brilhante, Mato Grosso do Sul (Embrapa Gado de Corte); e) Itapetinga, Bahia (CEPLAC); f) Governador Valadares, Minas Gerais (EPAMIG); g) Paranavaí, Paraná (IAPAR). Nos Estados do Acre e Minas Gerais e no Distrito Federal, apresentou a mais alta produção de matéria seca de folhas e a mais alta porcentagem de folhas entre os 25 acessos ou testemunhas, mesmo quando comparada com os materiais de porte alto como a cv. Mombaça. No Pará, a ‘Massai’ ficou entre as cinco mais produtivas. Em uma análise de agrupamento envolvendo todos os locais e considerando o vigor das plantas, as produções de matéria seca de folhas por corte e na estação seca, e a porcentagem de cobertura do solo, a cv. Massai ficou no grupo de melhor desempenho forrageiro, com a ‘Mombaça’ e outros quatro acessos. Em comparação às testemunhas, a ‘Massai’ apresentou produção de matéria seca total semelhante às cvs. Tanzânia-1, Mombaça e Tobiatã, e superior às ‘Vencedor’ e ‘Colonião’. Já quanto à produção de matéria seca de folhas, tanto nas águas quanto na seca, a cv. Massai foi superior às testemunhas e semelhante à ‘Mombaça’. A cv. Massai, a exemplo de outras cultivares da espécie P. maximum, requer níveis médios a altos de fertilidade do solo na implantação, mas é a menos exigente em adubação de manutenção e persiste maior tempo em baixa fertilidade com boa produção sob pastejo. É, entre as cultivares de P. maximum, a mais tolerante ao alumínio do solo. A quantidade de corretivos e adubos deve basear-se na análise de solos. Recomenda-se para implantação da pastagem, aplicação de calcário para elevar a saturação por bases de 40% a 45% na camada de 0 a 20 cm de solo. Adubação fosfatada deverá elevar os teores de fósforo em Mehlich-1:
• em solos argilosos (35% a 60%), para acima de > 6 mg/dm3; • em solos textura média (15% a 35%), para acima de >12 mg/dm3; • em solos arenosos (<15%), para acima de >15 mg/dm3. Embora a cv. Massai se adapte e persista
em uma ampla faixa de textura de solos comparativamente às demais
cultivares, seu desempenho e persistência também são
melhores em solos de textura média e argilosa.
Em climas com estação chuvosa
no verão, como a região Centro-Oeste, o plantio deverá
ser realizado de meados de outubro até fevereiro, sendo a época
ideal o período de 15 de novembro a 15 de janeiro.
Um aspecto importante de adaptação
apresentado por esse capim é a sua resistência à cigarrinha-das-pastagens.
A cv. Massai foi avaliada, em várias ocasiões, quanto à
resistência à cigarrinha Notozulia entreriana por meio
de parâmetros, como: percentual de sobrevivência de ninfas;
duração do período ninfal; níveis populacionais
no campo; notas de dano; preferência de alimentação
por adultos; peso seco de fêmeas e taxa de excreção.
Quando se avaliaram danos causados por adultos
de cigarrinhas confinados em plantas do capim-massai, constataram-se danos
moderados. Seguramente, essa cultivar de P. maximum foi a mais avaliada
quanto à resistência a uma cigarrinha, revelando-se resistente.
Tendo em vista a existência de várias outras espécies
de cigarrinhas, ocorrendo numa multiplicidade de condições
ambientais, apenas com o tempo e uso mais amplo desse acesso é que
se terá um quadro mais abrangente desse relacionamento inseto-planta.
As cvs. Tanzânia-1, Mombaça
e Massai foram comparadas quanto ao desempenho sob pastejo, de junho de
1995 a maio de 1999, em um solo da classe Latossolo Vermelho-Escuro distrófico,
caracterizado por uma textura argilosa, pH ácido, baixos teores
de fósforo disponível e alta concentração de
alumínio.
Tanto no período das águas
quanto da seca, as disponibilidades de matéria seca total (MST),
antes e após o pastejo, foram semelhantes às cultivares Tanzânia-1
e Mombaça, que, por sua vez, foram inferiores à cv. Massai
(Tabela 2). Isso se deve ao fato de se ter optado por uma maior disponibilidade
de forragem na pastagem de ‘Massai’, para que os animais tivessem maior
oportunidade de seleção de dieta de melhor qualidade.
Independente da gramínea, as disponibilidades de matéria verde seca (MVS) e de folhas foram superiores (P<0,01) durante o período das águas (Tabela 2). Durante o período seco, foram constantemente observadas baixas disponibilidades de MVS para todas as cultivares após o pastejo (Tabela 2), sugerindo que o desempenho animal, em todas as cultivares, pode ter sido limitado (Tabela 1) pela disponibilidade de forragem verde. Isso é corroborado pela baixa disponibilidade de folhas remanescentes após o pastejo na estação seca (Tabela 2). Já no período das águas, todas as cultivares apresentaram disponibilidades de MVS suficiente para não limitar o consumo de forragem pelo animal. Entretanto, apesar de a cv. Massai apresentar maiores disponibilidades de MVS e de folhas e maior relação folha:caule (Tabela 2), observa-se que o ganho de peso diário nesse capim foi inferior ao apresentado nas outras cultivares (Tabela 1), sugerindo que a ‘Massai’ tem menor valor nutricional. A cv. Massai, além de apresentar menores teores de proteína e de digestibilidade, possui maiores conteúdos de fibra e lignina que as cvs. Tanzânia-1 e Mombaça (Tabela 3). De fato, a ‘Massai’ apresenta qualidade inferior à das outras cultivares de P. maximum, estando mais próxima dos valores nutritivos observados em pastagens de Brachiaria decumbens e Brachiaria brizantha.
Apesar do menor valor nutritivo desse capim (Tabela 3), a alta disponibilidade de forragem e a alta relação folha:caule, principalmente durante o período seco (Tabela 2), faz dele uma boa alternativa para alimentação do gado no período seco, desde que se corrijam as deficiências nutricionais. Assim, durante o período seco de 2001, os animais foram suplementados. O suplemento utilizado era constituído de milho moído (47,5%), farelo de soja (28,2%), polpa cítrica (20%), uréia (2,5%), carbonato de cálcio (1,5%) e sulfato de amônio (0,3%). Ainda foi fornecido 1 grama/animal/dia de rumensin e sal mineral à vontade. Esse suplemento foi fornecido na quantidade de, aproximadamente, 0,7% do peso vivo dos animais, por 90 dias. Observou-se que, após a correção
nutricional, o desempenho dos animais (720 gramas/novilho/dia) em pastagem
da ‘Massai’ foi semelhante aos observados nas cvs. Tanzânia-1 e Mombaça
(Tabela 4). Vale ressaltar que animais recebendo o mesmo suplemento (0,7%
do peso vivo) em pastagens de B. decumbens e B. brizantha apresentaram
menores ganhos de peso, em torno de 550 gramas/novilho/dia.
Apesar do desempenho animal bovino inferior quando comparado ao das outras cultivares de P. maximum, esse capim poderá ser incorporado ao sistema de produção, uma vez que possui vantagens que não devem ser ignoradas. Dentre essas, ressaltam-se: melhor (P<0,01) cobertura de solo quando comparada à de outras cultivares, sendo em média, 87%, 83% e 76% para as pastagens de ‘Massai’, ‘Tanzânia-1’ e ‘Mombaça’, respectivamente. A maior tolerância ao decréscimo
de P no solo foi também observada para essa cultivar, uma vez que
apresentou melhor persistência nos níveis mais baixos de P
do que as outras cultivares. Além disso, essa gramínea teve
maior produção de parte aérea e de raízes em
soluções com alta concentração de alumínio,
em comparação com as cultivares Mombaça e Tanzânia-1.
Essas características podem ser confirmadas pelo desenvolvimento
de seu sistema radicular mais adaptado às condições
adversas do solo, como compactação, baixa fertilidade, alta
acidez e déficit hídrico.
O desempenho satisfatório apresentado
pela cv. Massai, associado a outras importantes características
de adaptação que ela possui, como persistência em níveis
baixos de P e resistência às cigarrinhas-das-pastagens, entre
outras, faz dela uma forrageira promissora para a diversificação
e viabilização da sustentabilidade de sistemas de produção
de bovinos de corte.
Beatriz Lempp
Embrapa Acre – Paulo Moreira e Judson Ferreira
Valentim
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